• JP Carvalho

Quilombo, Death Metal Ancestral!!!


É inegável que o Heavy Metal e todas as suas ramificações, sempre foi berço de mentes e talentos muito acima da média. Através da música pudemos ser inseridos em contextos dos mais variados, desde dragões, magos, serial killers, extraterrestres, civilizações perdidas e por aí vai.

Mas foi através da história da humanidade que o estilo apregoou grandes clássicos, sejam eles álbuns completos ou faixas individuais, a sua extensa fila de temas que podem ir de Alexander the Great do Iron Maiden, Declaration Day do Iced Earth, Smoking Snakes do Sabaton e até mesmo Wind of Change do Scorpions, todos clássicos inegáveis e cercados de temas históricos em sua temática lírica.

Aqui no Brasil, mais exatamente na cidade de São Paulo (SP) veio à luz um dos projetos mais contundentes de que temos notícia, o Quilombo. Formado por Allan Kallid – guitarra e baixo e Panda Reis – bateria e vocal (ambos do seminal Oligarquia), a banda aposta em temas que flertam com o Death Metal, o Grind e o Hardcore e se valem do embasamento histórico para a construção de suas letras.

Tivemos um bate papo muito interessante com o baterista Panda Reis e o resultado dessa conversa você confere a seguir.

Metal no Papel: A banda se propôs a relatar momentos históricos sensíveis a maioria das pessoas, como foi o processo de pesquisa em busca das informações que trouxessem a luz temas tão difíceis?

Panda Reis: A pesquisa na verdade já existia antes mesmo da banda existir, pois era uma das minha áreas de pesquisa desde a pós graduação, então já tinha alguma base para escrever sobre o assunto, claro que para entrar em uma área pouco explorada, já teria que ter interesse sobre o assunto e tema, gosto esse que foi natural, primeiro e naturalmente por conta da minha origem, depois por causa do histórico de consciência e luta da minha família, histórico esse que me moldou desde criança, por isso acho que o assunto é algo que me deixa bem confortável para falar sobre, porém prossigo estudando, sabe como é, história não é uma ciência estática.

MNP: Percebemos que você não se valeu dos discursos eurocentristas em suas letras, que por si só são recheados de preconceitos e desculpas absurdas para justificar o injustificável, a ideia inicial sempre foi essa?

Panda: Claro que não iria seguir discursos que sempre critiquei, a ideia sempre foi fugir dessa visão histórica que permeou a historiografia ocidental desde sempre, seria óbvio seguir por outro caminho visto como marginal desde que essa possibilidade surgiu. Uma frase que eu guardo desde lá dos tempos da faculdade era “A História é escrita pelos vencedores...”, ouvi isso quando estudava o Egito, o que me fez pensar e usar o método para qualquer estudo que envolva civilizações, conquistas e expansões, foi um estalo transportar esse pensamento para meu povo, meus ancestrais, pois as histórias que meus Pais, meus Avós contavam, eram diferentes das contadas nos bancos positivista eurocentrista das escolas.

MNP: Com isso, em algum momento você questionou a questão de ser indagado publicamente por estar levantando bandeiras, com a desculpa de ser apenas mais um trabalho musical?

Panda: Cara nem pensei nisso, até porque ser questionado é algo natural para pessoas que não seguem o padrão civilizatório esperado. Até agora o resultado tem sido completamente ao contrário, até de sites e portais que achava (erroneamente) que nem daria a devida atenção para a questão temática do EP, vem dando espaço e apoio ao que o disco representa.

MNP: Seu primeiro EP “Itankale” contem seis faixas de peso e velocidade acima da média, além de conter momentos percussivos muito pouco convencionais ao estilo, já que não se atem a questão da brasilidade como fizeram Sepultura, Angra e muitos outros e sim, ao contexto de guerra, de ancestralidade, como se deu a composição e a inserção dessas partes em sua música?

Panda: Obrigado pela percepção. Quando surgiu a ideia da banda, primeiro surgiu a ideia do conceito lírico e estético do EP , então costumo dizer que o disco nasceu antes mesmo da banda, então daí pra frente só foi achar os caras certos que entrassem nessa comigo, a parte metal já era clara que seriam eu e o Allan, a parte percussiva, na verdade eu queria gravar todos os instrumentos, mas lembrei do meu irmão Binho, que toca percussão com um monte de excelentes músicos e artistas da cena afro, reggae, samba, Umbanda e Candomblé, e como o conheço desde quando era uma criança (jogava futebol com os irmãos deles , os mesmos que montaram a primeira banda de metal da região do Jabaquara), então fiz o convite e seguiu a saga de alinharmos a agenda do cara, quando bateu, passamos um dia incrível de mútuo aprendizado, pois ele nem tinha ouvido as músicas e fui mapeando as partes de percussão conforme ele ouvia, prá depois soltar o Rec, foi um dia inesquecível, regado de cerveja, pinga São Francisco e um bom “chá”. A brasilidade que existe na verdade é africanidade.

MNP: Como foi a aceitação geral de um trabalho que se colocou a serviço de mostrar toda uma série de mazelas sofridas por pessoas que eram arrancadas de suas vidas em um continente e se viam obrigadas a começar tudo do zero em outro?

Panda: Cara, a hipocrisia reina entre o povo brasileiro, você sabe bem disso, pois qualquer brasileiro, até o mais ignorante, o mais alienado dos brasileiros sabem bem de todos os problemas que causaram esse momento nefasto da história brasileira e mundial, eu faço questão de frisar o Brasil acima de todos os países, primeiro por que foi o País que mais usufruiu da prática escravagista e foi uma das sociedades que mais esteve atrelada e dependente economicamente, religiosamente, politicamente e socialmente com a prática bárbara da escravidão, claro que não dá pra colocar ao lado as nações europeias que levaram a questão da escravidão a níveis nunca antes vistos no globo, então vem aquele papo que que eu chamo de remorso ancestral, por isso qualquer caucasiano de caráter e minimamente humanista, aceitou bem o EP.

MNP: Você acha que o brasileiro, com a sua prática cultural baseada em conceitos europeus e norte-americanos, se sente tendo todo uma realidade de agressões e desmandos, jogada na sua cara de forma tão contundente?

Panda: Cara, acho que podemos analisar a questão brasileira de algumas formas, as vezes parece patológica saca? Mas sabemos que vai muito além disso, a criação do nosso País, digo na questão civilizatória mesmo, tem a base em passagens vergonhosas da história, e o pior, veio de maneira importada, parando para analisarmos friamente a formação do povo brasileiro, veremos que o povo brasileiro é formada por povos que não são nativos, ao contrário de grande parte dos nossos irmãos e vizinhos, não tivemos uma mistura com os nativos, ao contrário , tentamos exterminá-los, cerca-los, depreciá-los e marginalizá-los, o plano deu certo e agora eles nem são mais vistos como reais brasileiros, verdadeiros nativos. Tomaram mesmo o local deles e eles não tem mais voz ativa alguma por aqui desde 1500, isso só falando dos nativos, não falo da questão da matriz africana, que apesar de ser o tema desse disco e consequentemente dessa entrevista, mas acho que fica claro todo o mal que foi feito conosco, desnecessário discorrer sobre aqui eu acredito. A formação da nação é de sangue, de estupros e imposições e agressões, um lugar que foi o último a abolir a escravidão, o único que enxerga seus nativos como intrusos e incômodos, onde a diversão do final de semana há apenas 132 anos era levar seus filhos pra ver um preto ser covardemente espancado, chicoteado, esfolado, algumas vezes até a morte, e que após uma pressão interna e externa se viu obrigado a libertar seus afrodescendentes, e simplesmente os jogou nas ruas, fica claro entender a mentalidade da massa brasileira (principalmente a classe média descendente de senhores de escravos).

MNP: Atualmente vivemos uma situação muito controversa política e economicamente, com isolamento social, risco eminente de morte e a precariedade do sistema público de saúde vindo à tona. Que tipos de sentimentos isso te traz?

Panda: Em que vivo exatamente o momento que a humanidade nos trouxe, a história é cíclica e os erros acumulados se acumulam, do mesmo jeito que a primeira guerra mundial não acabou e culminou na segunda (e provavelmente pode parar na terceira), todo o acúmulo civilizatório escoa durante séculos, desembocando no futuro, o problema é que uma hora o futuro se torna presente. O meu sentimento é de um historiador, boquiaberto, em meio ao olho furação da história, ao mesmo tempo que é um “privilégio”, me causa realmente uma sensação de fracasso coletivo como espécie, aquela percepção de que novas pestes negras virão, novas gripes espanholas (que nem eram espanholas, mas surgiu nos USA e quem levou a culpa foi a Espanha que não escondeu o caso e o noticiou) e infelizmente os medíocres as trataram com um desprezo que sempre cobra dos mais pobres.

A escolha do cara que está na presidência é prova da nossa falência democrática, do nosso entendimento sobre o jogo político e da democracia capitalista, quando se coloca um militar como presidente e um vice também militar, já fica clara nossa herança militarista e ainda não superada, quando você vê uma passeata que teoricamente tem como função o direito de ir e vir, clamando por intervenção militar, fechamento do congresso e retorno do AI-5, fica claro que somos um fracasso democrático e quando vemos o presidente mais preocupado com os efeitos econômicos da pandemia, do que com a saúde e vida de seu povo, fica claro nosso fracasso civilizatório.

MNP: Você acredita que esse modelo capitalista que rege quase todos os países do mundo é bom e só está sendo usado de forma errada, ou a ideal seria jogar tudo fora e partir para um novo modelo que atendesse todas as necessidades das populações em geral?

Panda: O capitalismo não é uniforme no mundo, algumas nações iludem melhor seu povo , fazendo parecer que o seu sistema é justo e funcional, outros espremem demais e fica claro a contradição do sistema, o que quero dizer é que os Países mais bem sucedidos no capitalismo , esqueça os USA e a China , esses são os que levam o capitalismo pelo resto do mundo, os que usufruem mesmo do sistema, a contradição não fica tão explícita, pois astutamente seus trabalhadores ganham bem, o padrão de vida é alto e todos os altos impostos retornam de maneira mais eficiente em forma de educação, saúde e bem público, então a massa se aquieta e se acha privilegiada e encara o sistema como bom, isso porque lhes é passado a mínima parte do que lhes seria de direito por produção ou distribuição de renda, entenda, quando o mínimo lhes é dado e a fome, miséria e diferença social não é absurda, o lugar parece um paraíso, mas ainda é exploratório, ainda é injusto pois quem mais produz ainda fica com a menor parte, mas a percepção da exploração do capital passa quase que despercebido, o que fica gritante em países pobres, celeiros produtivos para manter as maiores nações capitalistas, e com um trabalho bem feito contra outras maneiras de governo, faz parecer que a única forma de sistema seria o capitalismo, alguns até acham que é o mais justo, eu não vejo dessa maneira, está claro que o capitalismo errou e seria necessário um sistema que igualasse as coisas, deixasse o abismo social menor pelo menos, eu acredito na auto gestão, talvez o comunismo utópico fosse realmente lindo, mas acho que perdemos “o desvio “ pra isso no passado, e estamos cada vez mais afundados na ideia de que o capital é indispensável para a humanidade, mas eu o vejo como arcaico e extremamente excludente. Acho que a pergunta deveria ser outra, será que conseguiremos um dia, sairmos da “areia movediça” que é o capitalismo? Será que países como o nosso sairá do capitalismo selvagem (liderado pelos USA e a China atualmente) um dia pelo menos? Já o fim do capitalismo infelizmente eu não vejo, seu fim a curto e médio prazo, talvez ele se transforme antes de se auto sufocar e ser ultrapassado.

MNP: O que realmente vocês querem dizer quando afirmam que: “A Quilombo não veio para causar desigualdade ou pender a balança para um lado, mas veio para falar a versão à visão de quem não tinha voz e nem direito de escrever e falar de si mesmo, e sim equilibrar a balança.”?

Panda: Que com a evolução das mentalidades humanas, com o despertar acadêmico dos descendentes africanos espalhados pelo mundo e grande parte dos irmãos e irmãs africanos que se encontram no território ancestral, podemos estudar fora do eurocentrismo, podemos seguir métodos e modelos de estudos diferentes que nos eram impostos até então, temos descoberto diversas questões e solucionados outras, temos desmistificados assuntos antes ditos como certos, ou seja, a partir do momento que o afrodescendente estuda sua própria história, sem aquela visão pré-estabelecida e preconceituosa, a verdadeira história fica cada vez mais perto, ou seja, hoje sabemos que enquanto a Europa ocidental estava vivendo em cavernas e com medo da natureza, o africano já estudava as estrelas, a metalurgia e as ciências, entre outros assuntos bem mais relevantes na área evolutiva humana e social.

MNP: Muito obrigado pela entrevista, o espaço agora é seu para suas considerações finais.

Panda: Agradeço pela chance de poder falar um pouco mais das ideias da banda, espero que todos vocês estejam e fiquem bem , que apesar desse grande risco que é o Covid-19 , isso vai passar, infelizmente perderemos algumas pessoas, algumas que farão muita falta para a humanidade ou que fará falta para uma pessoa apenas, não importa, falta é falta, não se quantifica, espero que ao final nos tornemos humanos melhores, que essa pandemia nos ensine algo como civilização e que a partir de agora, percebamos que a vida é mais importante que qualquer economia. A gente se vê por aí e obrigado a cada pessoa que ler essa entrevista.

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