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  • Foto do escritorMaria Correia

Aos 80 anos Roger Waters não apenas revisita seu passado, mas molda o presente com mensagem urgente


Texto: Filipe Moriarty

Fotos: Marcos Hermes - Divulgação


No último dia 11 de Novembro de 2023, ficou marcado um capítulo lendário na história musical brasileira, com o penúltimo show da turnê "This is Not a Drill" de Roger Waters, o brilhante cérebro por trás dos clássicos eternizados pelo Pink Floyd. O Allianz Parque em São Paulo foi o palco para um espetáculo que não foi apenas um show, mas uma experiência imersiva, uma viagem pela mente complexa e provocativa de Waters.


O momento era de expectativa enquanto os telões anunciavam o início em contagem regressiva, ecoando a voz de Waters, alertando: "O show começará em 5 minutos". E começou de forma épica. Vestido como um personagem de seu icônico musical "The Wall", Waters surgiu no palco com uma cadeira de rodas vazia, iniciando o espetáculo com uma versão de "Comfortably Numb" - admito aqui, tirou lágrimas do autor deste texto. A plateia, instantaneamente, se tornou parte do espetáculo, imersa em imagens de uma cidade em ruínas projetadas nos telões.


Não era apenas um concerto; era uma jornada através das eras do Pink Floyd e desde "The Happiest Days of Our Lives" até "Another Brick in the Wall, Part 3", Waters guiou o público por uma narrativa musical e visual. As mensagens políticas não foram esquecidas e o momento mais contundente veio com "The Powers That Be", faixa do álbum solo de Waters e tivemos o choque de realidade com slides de pessoas mortas pelo movimento de opressão, seja religioso, politico ou social, onde imagens e nomes reais de violência foram entrelaçadas com a mensagem de resistência. Marielle Franco, George Floyd, Shreen Avu Akler, Mahsa Amini foram alguns dos nomes expostos.


Roger Waters mostrou-se não apenas como um músico, mas como um maestro de emoções, coordenando cada movimento no palco, sincronizado perfeitamente com as projeções. Ao entoar "Wish You Were Here" e "Shine On You Crazy Diamond", Waters prestou uma homenagem tocante a Syd Barrett, co-fundador do Pink Floyd, mergulhando na história da banda desde seus primórdios em Cambridge até o estrelato. E pela segunda vez extraiu lagrimas do autor que voz escreve, além de ser perceptível outros espectadores emocionados com o tamanho da apresentação.


Outro destaque da primeira parte foi "The Bar", uma canção que não apenas criticou a condição humana, mas também convidou o público para um "bar" metafórico, talvez um chamado à reflexão coletiva. Waters, ao piano, proporcionou um momento de introspecção, onde nos levou a um relato sobre a visão e perspectiva dele mesmo, que ali, no bar, é mais um e, como nós ele se coloca como um comum, lembrando-nos de nossas responsabilidades como sociedade.


Após um breve intervalo, Waters retornou desta vez, não como o médico de "The Wall", mas como um paciente, envolto em uma camisa de força, dando início ao segundo ato com "In The Flesh?". O simbolismo da vestimenta é uma crítica feroz ao totalitarismo, que não passou despercebido, especialmente após a controversa investigação alemã.


A sequência foi um turbilhão de mensagens políticas, desde o massacre em Bagdá em "Run Like Hell" até a defesa da liberdade de Julian Assange. Waters, um fervoroso defensor da causa palestina, trouxe à tona a atual situação na Faixa de Gaza com "Déjà Vu/Lay Down Jerusalem", reforçando um apelo claro: "Stop the genocide".


Roger também apresentou “is This the Life We Relly Want!?”, faixa lançada em 2017 - cheia de imagens que criticam o capitalismo e a monetização da religião. Em “The Bravery of Being Out of Range” o telão foi tomado por imagens de figuras politicas com o adjetivo estampado “CRIMIOSO DE GUERRA” e o motivo em seus rostos com um discurso de Ronald Reagan sobre o “Milagre Americano”. Bush, Biden, Obama e Trump são alguns dos ilustrados.


O músico demonstrou não apenas reverência ao passado, mas também uma atualização contextual. A crítica ao capitalismo em "Money" e a mensagem de união em "Us and Them" foram entrelaçadas com visuais impressionantes, como o mosaico de rostos representando a diversidade humana, tema que também entrou em "Any Colour You Like", "Brain Damage" e "Eclipse", onde os telões se transformaram em um espetáculo de luzes e cores, culminando na representação das bandeiras dos povos andinos, símbolo das lutas dos povos originários.


Roger Waters não apenas entretém, ele provoca, incita à reflexão, desde de causas como o conflito entre Israel e Palestina, as questões raciais e econômicas, os perigos nucleares, como em "Two Suns in the Sunset" e o bom mocismo teatral, movido pela aprovação nas redes sociais, fenômeno perigoso que a internet alimenta - a falsa liberdade aliada a falta de percepção de mundo que a internet e seus movimentos tem causado, tudo isso em “Sheep” - do álbum de 1977 - Animals


Ao final, Waters ao piano, volta a “the Bar” e encerra expressando sua gratidão ao público brasileiro e prestou homenagem a seus colegas músicos de palco. "The Bar (Reprise)" foi a ponte para o encerramento, com "Outside the Wall" fechando a noite de forma magistral. Roger ainda prometeu nos dar mais uma canção - coisa que não aconteceu e deixou a todos com desejo de mais, mesmo que com show de 2h30, é como se o tempo passasse diferente, de forma que tudo parecia muito rápido.


"This is Not a Drill" não foi apenas um concerto, foi uma experiência transformadora. Roger Waters, aos 80 anos, não apenas revisita seu passado, mas molda o presente com uma mensagem urgente. Seu ativismo político, entrelaçado com a maestria musical, ecoou nas mentes dos espectadores. Em tempos de incerteza, Waters é uma voz que ressoa, uma lembrança de que a arte pode ser uma força para a mudança. Uma noite com Waters é mais do que um show, é uma imersão na mente de um gênio, uma jornada através do tempo e da consciência humana. O Brasil, mais uma vez foi palco para uma página memorável na história musical global.



SETLIST:

Comfortably Numb

The Happiest Days of Our Lives

Another Brick in the Wall, Part 2

Another Brick in the Wall, Part 3

The Powers That Be

The Bravery of Being Out of Range

The Bar

Have a Cigar

Wish You Were Here

Shine On You Crazy Diamond (Parts VI-IX)

Sheep


Segunda parte

In the Flesh

Run Like Hell

Déjà vu + “Lay Down Jerusalem” bit + Déjà vu (Reprise)

Is This the Life We Really Want?

Money

Us and Them

Any Colour You Like

Brain Damage

Eclipse

Two Suns in the Sunset

The Bar (Reprise) - Homenagem a Bob Dylan e outros

Outside the Wall

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